"A meta final do JUDÔ KODOKAN é o aperfeiçoamento do indivíduo por si mesmo, desenvolvendo um espírito que deve buscar a verdade através de esforço constante e da sua total abnegação, para contribuir na prosperidade e no bem estar da raça humana" "Nada sob o céu é mais importante que a educação. Os ensinamentos de uma pessoa virtuosa podem influênciar uma multidão; aquilo que foi bem aprendido por uma geração pode ser transmitidas a outras cem." Jigoro Kano

O Ne-waza e o Judô

2 comentários sábado, 20 de dezembro de 2008 às 17:17 - Edit entry?




Kosen Judo, Fusen-Ryu e Brazilian Jiu-Jitsu

O Fusen-ryu Ju-jutsu

O judô de Jigoro Kano, ou Kano ju-jutsu, como era chamado em sua criação, representa uma síntese desenvolvida a partir de vários estilos de ju-jutsu praticados no século 19. Um desses estilos de ju-jutsu, chamado de Fusen-ryu ju-jutsu era uma escola diferênte, enfatizava a luta de chão (Ne Waza) que foi incorporado ao judô depois de uma grande derrota dos alunos de Jigoro Kano por volta de 1900 para praticantes do Fusen-ryu ju-jutsu do mestre Mataemon Tanabe. Nessa época, os alunos do Kodokan de Jigoro Kano superavam os praticantes de estilos tradicionais de ju-jutsu.
No final da década de 1890, apareceu em Tókio Mataemon Tanabe, um mestre de uma escola bastante diferente de Ju-Jutsu, a Fusen-Ryu. A Fusen-Ryu era especializada ne-waza, luta de solo, pelo menos a linha de Tanabe, foi ele que começou a desenvolver essas técnicas em seue stilo de luta. Ao enfrentar os melhores do Kodokan, Tanabe usou uma estratégia diferente das outras escolas que tentaram antes (e que não tinham muita luta de chão). Ele não tentava lutar com eles em pé, mas já trazia "para a guarda" (do-shime) e no chão finalizava-os com chaves nas articulações e estrangulamentos.No Fusen-ryu ju-jutsu o ponto forte era a finalização. Aparentemente, eles também já treinavam técnicas isoladas e randori, só que mais no chão.
Foram feitos vários desafios entre o Kodokan e a escola Fusen-ryu, e o resultado era sempre o mesmo. Tanabe finalizando alguns dos melhores lutadores do Kodokan, inclusive o célebre discípulo de Kano, Hajime Isogai, O Kodokan, exatamente na virada do século, entre um desafio e outro, pôs-se a praticar técnicas de chão intensamente, com o que tinham e com o que não tinham. O que tinham vinha das escolas Tenshin-Shinyo-Ryu e Kito-Ryu, e não dava para enfrentar a escola de Mataemon Tanabe.
Procuraram ajuda na escola Takenouchi-Ryu, que contava com um bom currículo de ne-waza, incluindo, além das chaves e estrangulamentos, o trabalho de imobilizações. O último combate entre Isogai e Tanabe terminou, finalmente, empatado.
Na verdade Mataemon foi um dos poucos a vencer confrontos com o Kodokan, em matéria de ne-waza não havia confiança suficiente para enfrenta-lo de igual para igual, foi aí que Kaishiro Samura, Oda Tsunetame, Hajime Izogai e Suiti Nagoóka, empenhados em sanar essa falha, conseguiram finalmente melhorar consideravelmente o judô nessa forma de luta, inclusive, num desafio que veio a ser efetuado em Okayama, terra de Tanabe, em 1899, Hajime Isogai, treinado por Kaishiro Samura (samura era originário do estilo Takenouchi-ryu ju-jutsu, no Kodokan era o melhor nessa forma de luta) dominou completamente Mataemon Tanabe que, sem outra alternativa, com a luta já perdida, foge ao combate de forma comprometedora.Entretanto, o arbitro Katarô Imai, mestre de kito-ryu ju-jutsu, contra tudo e contra todos, declara empate. Mas Jigoro Kano reconheceu que o eficiência da escola Fusen-ryu era o melhor para finalizações e convenceu Tanabe a ajudar a melhorar a parte de ne-waza do Kodokan. Algumas fontes dizem que Tanabe passou os antigos documentos técnicos da Escola Fusen-ryu ao Kodokan.
Jigoro Kano era uma figura muito importante no governo, ligado ao Ministério da Educação, e diversos mestres, de diversas escolas, aceitaram sua liderança, inclusive Tanabe, no livro Judo Kyohan, de Yokoyama, podemos ver Tanabe demonstrando algumas finalizações.
Foi assim que o ne-waza do judô se desenvolveu, através de desafios contra a escola de Fusen-ryu e com a ajuda da escola Takenouchi-ryu.

O Kosen Judô










Jigoro Kano inicialmente incentivou uso do Ne Waza nos clubes de judo de escolas e universidades, em razão de sua efetividade e por machucar menos os alunos. O treino de newasa era mais fácil a fim de permitir empates em campeoatos e encurtava o tempo de preparação de iniciante para campeonatos. Daí, técnicas como Hikikomi (posição quatro apoios) e Sankaku Jime serem populares e bem pesquisadas. KODOKAN ENTRA EM AÇÃO A eficiência, a efetividade e facilidade de aprendizado do Newasa por lutadores menores e mais fracos modificaram as competições de judô. Era mais fácil treinar um judoca em newasa para fazê-lo paralisar um judoca mais forte mais pesado de outra escola, então o Newasa passou a predominar no Kodokan.

Em 1914, no campeonato All Japan para escolas, realizado na Universidade de Kyoto, essa especialidade do Kodokan em Ne Waza foi chamada de "Kosen Judo". O Kosen é simplesmente um estilo do Kodokan Judo. O Kosen Judô tem as mesmas quedas e outras técnicas que o judô tradicional, mas com ênfase em newasa.(técnicas e luta no solo), como imobilizações, chaves e estrangulamentos. Este estilo de judô ainda é praticado nos tempos atuais. Os pequenos estudantes das Universidades Kosen eram comunente, dominados por oponentes maiores, já que não existiam categorias de peso no judô tradicional naquele tempo. Então era muito mais fácil para lutadores maiores e mais pesados derrubarem lutadores menores e mais leves. Essencialmente, o treinamento dos lutadores de Kosen eram as técnicas de newasa a fim de poder imobilizar, finalizar e escapar de imobilizações. O Kosen Judô Taiká era basicamente um campeonato baseado em disputa entre times.
A ênfase em Ne Waza, inicialmente vista com bons olhos por Kano, acabou predominando de tal forma na prática do judô durante as primeiras décadas do século 20, que Jigoro Kano passou a desestimular sua prática, sem contudo eliminá-la do curriculum da Kodokan em função de sua efetividade em combates reais. Foi devido ao sucesso dessa parte em competições, que Kano introduziu novas regras, limitando o tempo que o judoca poderia permanecer no chão. Foi determinado que as competições teriam e partir do Tachy-wasa (em pé) e se o competidor levasse o adversário mais de três vezes ao solo era declarado vencedor. Em 1914, Kano organizou o Torneio Entre universidades Kosen realizado na Universidade Imperial de Kioto. Este estilo esportivo de competição era chamado Kosen Taikai. Este estilo de Judô ainda é praticado em algumas universidades japonesas, em especial pelas sete ex-universidades imperiais do Japão. Este estilo é chamado de shichitei-judo (七帝柔道). Todo ano as sete Universidades realizam uma competição deste estilo.

Ao longo dos anos as regras do judô foram sendo alteradas visando desfavorescer o uso de Ne Waza em campeonatos, o que desestimulou seu ensino de um modo geral. Muitos, contudo, continuaram a praticar e desenvolver o Kosen Judo, especialmente no âmbito dos clubes de judô de universidades imperiais. Ainda hoje a prática do Kosen Judo existe no âmbito dessas universidades (ex. Kyoto) e em algumas academias isoladas, de acordo com o interesse do mestre nessas técnicas (que fazem parte do repertório do Kodokan). De um modo geral são menos praticadas pelos que enfatizam o treino para competição. Em 1925, Jigoro Kano decidiu redefinir as regras de competição do judô. Uma delas foi a de limitar ainda mais o tempo em que o atleta poderia gastar no chão. Isso, realmente veio a estacar tendência de predomínio das técnicas de newasa; mesmo assim, as escolas de Kosen continuaram pemitidas a treinar e competir do jeito eu já vinham fazendo desde o século anterior. Kosen Judô seguiu seu próprio destino e manteve as mesmas velhas regras de competição até os dias de hoje. Kano tomou o cuidado de não proibir as regras do Kosen ao introduzir novas mudanças. Ele assim procedeu por diversas razões:

1-Haviam, relativamente poucos judocas treinano apenas newasa;
2- Ele queria especialistas em newasa no Judô;
3-Ele não se convencia que fazer apenas newasa fosse ruim para o judô.
4-Os judocas do Kosen também praticavam Tachy-wasa, além do newasa.

Veremos abaixo vídeos que foram feitos na Nandaisen, que é o torneio que reunia 7 universidades nacionais: Hokkaido U, Tohoku U, Tokyo U, Nagoya U, Kyoto U, Osaka U, and Kyushu U. Essa é uma competição entre Kyōdai (Universidade Kyoto) e Kyūdai (Universidade Kyushu) desde 1985. O que é interessante é que esse Nanadai Judô se considera herdeiro das regras do Kosen Judô e isso é explicado muito claramente no conjunto de regras intercolegiais, publicadas no site deles (http://nanadaisen.ak...nanadairule.pdf ; also see the pdf below).

No prefácio das regras lê-se:

"O Torneio de Judô das Sete Universidades começou em 1952. Nós podemos falar que Nanadaigaku Judô é a forma de Judô que é usada desde antes da Segunda Guerra nos torneios de Kosen Judô. [...]
Judô foi originalmente criado a patir do estudo concomitante entre Tachi-Waza e Ne-Waza que foi transmitido ao mesmo tempo. Nesse sentido, Nanadaigakuku Judô promoveu como principal objetivo elever o nível de Ne-Waza. [...]"

O elo dessas sete universidades é que elas foram as setes universidades imperiais antes da Guerra. É interessante salientar que esses videos foram feitos OITO anos antes do primeiro UFC, onde os Gracie mostraram ao mundo suas "inovações" em matéria de ne-waza.
























Nage-wasa e Katame Wasa por Jigoro Kano.
Extraído do livro "Energia Física e Mental- escritos do fundador":
"Quando eu estava treinando, eu praticava muito Katame-wasa, mas depois comecei a gostar de nage-wasa, ao aprender o Kito-ryu, passei a crer que se deveria dar ênfase a nage-wasa nos aspectos técnicos do treinamento do judô. Isso não quer dizer que eu considere o Katame-wasa inútil, é claro, mas eu insisto na prática de nage-wasa no início, e só depois de Katame-wasa. Faço isso porque começar com Katame-wasa atrasa o progresso em nage-wasa, e é lógico que começar com nage-wasa faz com que seja mais fácil lembrar do Katamewasa em um estágio posterior. Quando criei o judô kodokan, estimulei a prática de nage-wasa por esta razão. Em resultado, nessa época um grande número de especialistas em nage-wasa se juntou a nós nos primeiros anos do Kodokan.
Pelo fato de termos enfatizado o nage-wasa, o Katame-wasa aos poucos foi deixado de lado. Por volta de 1887, mestres de várias escolas de todo país se reuniram no Departamento de Polícia Metropolitana de Tóquio. Entre eles havia especialistas em Katame-wasa. Ao competir com eles, os praticantes da Kodokan não tinham problemas ao usar o nage-wasa, mas inicialmente tiveram dificuldades ao usar o Katame-wasa. A mesma coisa aconteceu em várias competições realizadas na Kioto Butokukai, com especialistas em Katame-wasa de todo o país- os praticantes da Kodokan ganhavam com facilidade quando usavam nage-wasa, mas sentiam dificuldade com relação ao katame wasa, com o qual estavam menos familiarizados. Por esta razão, reforçamos a prática de Katame-wasa, na qual a Kodokan ganhou mais proeminência. Atualmente, a maioria dos praticantes da Kodokan pode confiar em sua técnica contra qualquer oponente, seja usando nage-wasa ou Katame-wasa. Devo ressaltar, entretanto, que apesar de termos progredido na prática de Katame-wasa na Kodokan, nosso progresso em nage-wasa foi interrompido. Existe um limite para energia do ser humano e, quando se gasta muita energia em uma área, outra área é negligenciada- isso é inevitável. Por isso agora estou pensando seriamente no randori do futuro. Se Katame-wasa for praticado depois de se enfatizar nage-wasa, será possível que algumas pessoas desenvolvam grande habilidade em ambos. Porém como as pessoas normalmente não são excelentes em ambos, elas deveriam se concentrar no entendimento de nage-wasa, devotando menos energia ao katame-wasa. Os que têm interesse particular em Katame-wasa deveriam praticá-lo como forma principal. No futuro eu planejo usar essa estrutura ao dar instrunções.'

O Brazilian Jiu-jitsu






Dentre os alunos de Jigoro Kano do início do século 20 que dominavam as técnicas de Ne Waza oriundas do Fusen-ryu e Takenouchi-ryu ju-jutsu estavam Maeda, Tomita, Yokoyama e Yamashita. Maeda foi o Conde Koma, que viveu no Brasil entre 1914 e 1941, treinando membros da familia Gracie e também Luis Franca, mestre de Oswaldo Fadda, um nome influente mas menos conhecido do "jiu-jitsu brasileiro" (BJJ). Mitsuyo Maeda , conhecido como Conde Koma, foi um grande mestre de judô. Depois de percorrer vários países divulgando o judô, chegou ao Brasil em 1914 e fixou residência em Belém do Pará, existindo até hoje nessa cidade a Academia Conde Koma. Um ano depois, conheceu Gastão Gracie. Gastão era pai de oito filhos, sendo cinco homens, tornou-se entusiasta do Judô e levou seu filho Carlos Gracie para aprender a luta japonesa. Maeda conheceu Gastão devido a um desafio a um lutador do American Circus, Alfredi Leconte, o Hércules do circo, depois disso Maeda e Gastão ficaram muito amigos.
Pequeno e frágil por natureza, Carlos encontrou no “jiu-jitsu” o meio de realização pessoal que lhe faltava, descontando intervalos provocados pelas viagens do japonês, as aulas com Maeda duraram quase três anos, as aulas eram dadas em uma academia que maeda abriu em 1916,nos salões do Cine Teatro Moderno, localizado ao lado da Igreja de Nazaré, hoje uma praça, as aulas eram amplamente divulgadas nos ornais para quem quisesse aprender pagando.O primeiro aluno de Maeda foi o estivador Jacinto Ferro, ex-lutador de greco-romana, Jacinto foi instrutor de Maeda e ajudou a dar aulas para o Carlos Gracie.
Satake também abriu uma academia em 1916,em Manaus, o Luís França que formou o mestre Fadda, que foi o grande responssável pela divulgação do Brazilian Jiu-jitsu nos subúrbios do Rio de Janeiro, foi aluno de Satake e teve aulas com Maeda também.



Há alguns videos de Kosen Judo na internet onde é possível ver que as grandes "inovações" dos Gracies já eram conhecidas pelos Japoneses,isso em 1910 ,veja por exemplo a série Kosen Judo no Google-videos...












A Origem das Faixas Coloridas no Aikido Por Don Cunningham

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Tradução feita por Cristiano Lobo – Instituto Takemusu Dojo Central

Lendas e mitos floresceram junto com a prática de artes marciais, tais como o judo e o karate, desde o começo. Ainda, parece não haver significância maior do que aquela associada com as origens místicas da cobiçada faixa preta. Para o espanto de muitos praticantes de artes marciais, a história da faixa preta é um tanto pequena no contexto geral...

Muitas histórias existem a respeito da honrada faixa peta em vários estilos de artes marciais. Uma das mais comuns que se ouve é a de que o artista marcial novato começou tradicionalmente com uma faixa branca. Como ele treinou e praticou durante anos, a faixa tornou-se suja, primeiramente marrom e finalmente preta assim que aperfeiçoou suas habilidades marciais. Apesar dessa extraordinária metáfora ter sido fornecida com um pouco de folclore, infelizmente, não se tem nenhuma fonte verídica. As faixas coloridas nunca fizeram parte da antiga tradição das artes marciais.

Na verdade, a faixa preta foi usada primeiramente para designar a habilidade ou o grau no Judo Kodokan há pouco mais de cem anos. O Dr. Jigoro Kano, um educador e entusiasta do esporte, foi o primeiro a usar a faixa preta como um símbolo para os estudantes graduados e possuidores de Dan em sua escola, a Kodokan, fundada em 1882, em Tokyo. Antes disto, as escolas de Jujutsu, como a maioria das outras escolas de artes japonesas tradicionais, utilizavam o complicado sistema de Menkyo como uma forma de licenciar os estudantes aos níveis técnicos de habilidades particulares.

Uma compreensão do sistema educacional japonês e das circunstâncias sociais requerem uma perspectiva histórica. O treinamento sistemático de guerra e de armas desenvolveu-se primeiramente nas tradições marciais, escolas, ou estilos (ryu ha) entre os séculos 11 e 15. Os Samurais reuniram-se em clãs, centrados em torno das famílias ou regiões, para o treinamento de armas específicas e técnicas marciais. Assim que o treinamento se tornou mais distinto e individual, os estilos marciais ou escolas (bujutsu ryu) começaram a se formar no início do período Tokugawa (1600-1868).

Antigas artes marciais do Japão foram eventualmente classificadas em dezoito ramificações diferentes, como mencionadas no Bugei Ju-Happan. Basicamente, estas categorias são: kyujutsu, hojutsu, tantojutsu, naginatajutsu, mojirijutsu, bajutsu (horsemanship), sojutsu, shurikenjutsu, ganshinjutsu, toritejutsu, kusarigamajutsu, bojutsu, shinobijutsu, suijutsu, kenjutsu (swordsmanship), battojutsu, jutte-jutsu, jujutsu. Paralelamente, muitas escolas de outras artes, tais como a caligrafia (shodo), pintura (sumi-e), ou as formas de cerimônia do chá (chado), foram criadas também para disseminar suas técnicas e estilos distintos. Estas escolas também usaram o sistema do Menkyo para licenciar seus graduados.

Geralmente os estudantes destes antigos ryu ha foram primeiramente licenciados como Shoden. Seus rankings progrediram então com Chuden, Okuden/Mokuroku, Menkyo, e finalmente, Menkyo Kaiden, o último significado, literalmente, "licença da transmissão total." Entretanto, cada ryu ha seguiu seus próprios critérios para licenciar estudantes. A seqüência particular e mesmo os vários títulos eram frequentemente diferentes entre si.

As Graduações (rank) eram designadas geralmente por certificados especialmente criados ou por cartas escritas à mão do professor ou fundador. Frequentemente, os níveis mais elevados eram acompanhados da apresentação de um Densho, pergaminhos de instruções manuscritas ou de registros dos segredos dos fundadores das várias escolas. Alguns Densho forneciam instruções detalhadas e ilustrações gráficas de técnicas particulares. Outros usavam palavras e/ou caracteres descritivos que serviam como uma ajuda à memória para técnicas avançadas (memória minemônica). Os últimos documentos originais eram sem sentido às pessoas não familiarizadas com a linguagem particular dos ryu ha.

Devido à natureza sigilosa dos vários ryu ha e seus instrutores, o sistema de graduação do menkyo teve várias desvantagens. Primeiramente, não havia nenhuma maneira de avaliar ou comparar níveis de habilidade equivalentes dos graduados das escolas diferentes. Adicionalmente, as etapas entre licenças separadas podiam levar o praticante a qualquer lugar de alguns meses a diversos anos, dependendo da filosofia ou do estilo particular do professor.

Em sua juventude, Kano aprendeu primeiramente as bases do jujutsu de Teinosuke Yagi. Mais tarde, estudou o jujutsu de Tenshin Shinyo Ryu sob Hachinosuke Fukuda e Masatomo Iso, bem como o jujutsu Kito Ryu sob Tsunetoshi Iikubo. Foi iniciado nos segredos de ambas as escolas.

Após ter fundado sua própria escola; o Kodokan em 1882, Dr. Kano fez também estudos acadêmicos de muitos outros estilos do jujutsu. Além a visitar e praticar com os mestres ainda vivos, examinou com cuidado o Densho dos outro ryu ha de jujutsu. Logo depois que se decidiu dar forma a seu próprio estilo de jujutsu, Dr.. Kano revisou também o sistema de graduação (ranking), criando dez etapas com os intervalos relativamente curtos para manter os estudantes de judo interessados em progredir através dos vários níveis técnicos.

Em 1883, o Dr. Kano dividiu seus estudantes em dois grupos, dos não-graduados (mudansha) e dos graduados (yudansha), de acordo com Naoki Murata, diretor do museu de judo do Kodokan. Os primeiros yudansha, ou grau Shodan, eram dois estudantes famosos no Kodokan nesse tempo, nomeados Tsunejiro Tomita e Shiro Saigo. Estes dois estudantes foram também os primeiros promovidos a segundo dan um ano mais tarde.

Shiro Saigo, imortalizado no romance de ficção de Tsuneo Tomita, o "Sugata Sanshiro," e nas adaptações nos filmes de Akira Kurosawa (década de 40) sobre os infames torneios entre o judo e o jujutsu, pulou o terceiro dan e foi promovido diretamente a quarto dan no ano seguinte, em 1885, relata Muraka. Neste período, todas as graduações de Dan foram anunciadas diretamente pelo Dr. Kano ou fixadas em placas no Kodokan.

As faixas pretas não foram usadas como símbolos de graduação Dan no Kodokan até 1886 ou 1887, relembra Muraka, sobre a época dos torneios metropolitanos da polícia de Tokyo entre a escola de jujutsu fundada por Hikosuke Totsuka e pelo Kodokan do Dr. Kano. Após a vitória decisiva do Kodokan, os certificados ou os diplomas não foram emitidos pelo Kodokan até 1894, quase onze anos após a criação do sistema de graduação Dan do judo.

Eventualmente, a habilidade ou o nível do judoka vieram a ser denotados pelas faixas coloridas usadas em torno da cintura com o judogi. No Japão, as faixas brancas são geralmente usadas por todas as graduações de kyu, embora algumas escolas usem também a faixa marrom para indicar os níveis mais elevados do kyu. As faixas azul, amarela, alaranjada, verde, e roxa usadas pelos níveis intermediários do kyu tiveram origem na Europa e foram importadas para o sistema dos Estados Unidos durante o início dos anos 50.

As faixas pretas são tradicionalmente usadas pelos praticantes competitivamente graduados, primeiro dan (shodan) até o quinto dan (godan). Uma faixa vermelha e branca é usada pelos níveis merecidos pelo serviço prestado ao judo, sexto dan (rokudan) até o oitavo dan (hachidan), e as faixas inteiramente vermelhas são reservadas para o nono dan (kudan) e o décimo dan (judan).

O karate incorporou ambos os sistemas, a graduação Dan e o uso da faixa preta, quando Gichin Funakoshi, o mestre do karate de Okinawa, primeiramente demonstrou e mais tarde ensinou a base de sua arte marcial de Okinawa no Japão durante a década de 20 no Kodokan. O sistema de graduação Dan foi eventualmente incorporado ao Kendo (a arte da espada), ao Aikido, e à maioria das outras artes tradicionais.

A origem das faixas coloridas, bem como, o significado das cores particulares, ainda é encoberta de mistérios, e pode permanecer perdida na história. Embora não tenha deixado nenhuma razão registrada para as várias cores usadas, o Dr. Kano deixou alguns indícios. De acordo com sua doutrina filosófica, não há limites para as melhorias e para o progresso que se pode ter no seu treinamento de judo. Assim, o Dr. Kano acreditou que se alguém conseguisse um estágio mais elevado do que o décimo dan, retornaria conseqüentemente à faixa branca, terminando desse modo o círculo completo do judo, como o ciclo da vida.

No caso desta eventualidade, deve-se salientar que o Kodokan decidiu que a faixa usada por tal pessoa deveria ser aproximadamente duas vezes mais larga que a faixa comum, para impedir que os novatos confundissem o significado. Até agora, o Dr. Kano é a única pessoa com a graduação de décimo segundo dan e com o título de Shihan.

O Dr. David Matsumoto, autor de “An introduction to Kodokan history and philosophy", cita uma combinação de duas possibilidades para o uso tradicional das faixas brancas, o significado simbólico da cor e dos aspectos práticos da produção do uniforme.

“Primeiramente, o branco teve um significado especial, simbólico na cultura japonesa por séculos”, Dr. Matsumoto escreve. "O povo japonês considera geralmente a cor branca como sendo o reflexo da pureza divina desde épocas antigas."

Assim, as faixas brancas podem ser mais apropriadas para refletir a pura inocência e virtude dos iniciantes, de acordo com o Dr. Matsumoto. Pode também refletir a seleção do algodão usado no material do judogi. Após o uso e lavagem freqüente, o material colorido ou amarelo natural do algodão tende a tornar-se branco.

Uma suposição não-autêntica a respeito das faixas pretas usadas pelos níveis Dan é que o Dr. Kano emprestou o conceito dos esportes japoneses das escolas de ensino médio. Os competidores avançados eram separados dos novatos em torneios de natação por uma fita preta usada em torno da cintura. Como um distinto educador e entusiasta dos esportes, o Dr. Kano estava certamente ciente desta tradição e pode tê-la incorporado em suas práticas no Kodokan.

A seleção das faixas vermelhas e brancas para distinguir os níveis mais elevados pode também ter sido baseada em uma preferência cultural simples, de acordo com Meik Skoss, um notável historiador das artes marciais e autor de artigos numerosos sobre artes marciais japonesas. Os Japoneses dividem tipicamente grupos em lados vermelhos e brancos, baseados em um evento histórico pivotante. A Genpei War era uma disputa entre dois clãs rivais, o Genji e Heike. O Genji usava as bandeiras brancas para identificar suas tropas no campo de batalha, enquanto o Heike usava bandeiras vermelhas.

Como exemplos, o Sr. Skoss aponta o semestral jogo Kouhaku Shiai do Kodokan, onde os estudantes de judo são divididos em dois grupos, vermelhos e brancos. Esta competição teve início logo depois que o Kodokan foi formado e transformou-se em um evento tradicional. Além do mais, os competidores no judo moderno são distinguidos por uma faixa branca ou vermelha na cintura, enquanto que os competidores do kendo são identificados por um tasuki vermelho ou branco, uma fita pequena amarrada à parte traseira da armadura.

Dr. Kano tinha uma afinidade particular por idiomas e grande interesse acadêmico em literatura clássica Chinesa, especialmente o I Ching, ou Livro das Mutações. O I Ching é basicamente uma coleção de sabedorias morais e políticas baseadas no conceito dos opostos mútuos, o Yin e o Yang. A escolha das faixas vermelhas e brancas feita pelo Dr. Kano deve ter sido uma representação simbólica do princípio da harmonia indicado pelo equilíbrio de Yin e Yang.

Por outro lado, a criação do sistema de graduação Dan do Dr. Kano deve ter representado uma rejeição radical à cultura japonesa e uma maneira deliberada de diferenciar seu novo e melhorado sistema, dos estilos tradicionais de Jujutsu, de acordo com Skoss.

" A era Meiji foi uma época de grandes mudanças sociais, econômicas e políticas – e Kano estava certo no meio disso tudo," disse Skoss. "Ele foi um inovador em seus métodos e teve alguns problemas óbvios com a cultura feudal japonesa. Por exemplo, ele não ficava feliz com a maneira que muitos praticantes de jujutsu eram como os Punks das ruas, e que usavam o que tinham aprendido para extorquir dinheiro dos transeuntes ou para satisfazer seus egos distorcidos."

Como um educador e um racionalista, que desdenhou superstições sem fundamentos, Dr. Kano quis criar um sistema de treinamento que não fosse prejudicar o físico de seus alunos e também levasse ao desenvolvimento de um padrão moral elevado e um forte caráter individual. Ainda, ela estava em conflito com os ryu mais antigos de Jujutsu, mas, sentiu muito que a tradição cultural tinha sido validamente preservada . Sua adoção de um sistema novo de graduação deve ter sido uma rejeição às tradições do Jujutsu e uma preservação da hierarquia tradicional japonesa.

" A sociedade japonesa é verticalmente estruturada" Skoss explica. "Um forte senso de posição relativa está presente em toda a interação social, e símbolos de graduação também tem sido parte de uma cultura voltada para o período Heian e até mesmo antes."

Skoss citou a adoção dos níveis de hierarquia encontrados nos mais antigos relatos da soberania Imperial Japonesa, bem como os chapéus coloridos denotando níveis e fortes regulamentações indicando relações de graduação durante esses períodos. A utilização das faixas coloridas pelo Dr. Kano para denotar níveis de graduação deve ter sido desenvolvida a partir dessas tradições, de acordo com Skoss.

Seja qual for a razão, a obtenção da faixa preta ainda representa uma significante evolução em habilidades técnicas e habilidades competitivas para a maioria dos Judokas de todo o mundo. Contudo, como todos os Judokas graduados com Shodan rapidamente aprendem, isto também representa um passo inicial no caminho para uma consciência superior e um grande aperfeiçoamento, e que pode levar uma vida inteira de dedicação.



NOTA DA TRADUÇÃO: No Instituto Takemussu, quando o praticante chega em torno do 3 Kyu, o Sensei Wagner Bull faz uma avaliação e se percebe que a pessoa sabe cair muito bem, e os movimentos do Aikido estão já incorporados em seus reflexos, e tambem se a pessoa mostra amor e dedicação pelo Aikido, recebe então o direito de usar o Hakama!. Assim no Instituto Takemussu a pemissão do uso do Hakama significa que o Aikido já “entrou no sangue” do praticante.

ENTREVISTA COM MINORU MOCHIZUKI Por Stanley Pranin e Ikuko Kimura

2 comentários segunda-feira, 1 de dezembro de 2008 às 09:12 - Edit entry?

A entrevista que se segue foi realizada no Dojo do Sensei Minoru Mochizuki, na cidade de Shizuoka, em 22 de novembro de 1982.


Aiki News 54 – Abril de 1983



Minoru Mochizuki, fundador do Yoseikan Aikido















Aiki News: Sensei Mochizuki, creio que a primeira arte marcial que o senhor praticou foi o Judô.



Mochizuki Sensei: Exato. Eu comecei um ano antes de ingressar na escola elementar. Quando eu já estava cursando a 5ª série, nós nos mudamos e então eu tive que parar com meu treinamento. No novo local, do outro lado da rua e apenas uma casa acima, havia um dojo de Kendo, que eu passei a praticar. Quando eu estava na escola intermediária, voltei a praticar Judô e não parei mais. Eu sentia que iria gostar de me tornar um especialista de judô, então procurei o Kodokan (sede mundial do Judô). Um ano antes, contudo, eu tinha ingressado no dojo de um dos mais professores da Kodokan, chamado Tokusanbo. Na época, costumava-se dizer nos meios de judô: “Mifune é o mais técnico, mas o demônio do Kodokan é o Tokusanbo”. Realmente, ele era um professor poderoso e assustador. Seu dojo ficava em um local conhecido por Komatsugawa. Na época, eu morava com uma irmã cuja residência era próxima daquele local. Eu treinei lá durante seis meses aproximadamente, quando me mudei novamente e então ingressei no Kodokan para me tornar um judoca.



Eu ingressei no dojo do Sensei Tokusanbo em 1924. Naquela época, um professor de Jujutsu do antigo estilo “Gyokushin-ryu” morava perto da minha irmã. Seu nome era Sanjuro Oshima. Esse professor estava realmente entristecido com o desaparecimento dos estilos clássicos do Jujutsu e estava determinado a preservar sua própria arte. Tanto que pediu que eu a aprendesse através dele. Eu iria à sua casa, onde me seriam oferecidos excelentes refeições e eu não teria que pagar nada pelas lições. Foi assim que eu comecei a praticar Jujutsu.



O senhor atingiu qual graduação naquela arte?



Após seis meses, aproximadamente, eu recebi um certificado de “Shoden Kirishi Mokuroku”, razoavelmente comparável à faixa preta 1° Dan de Judô. Com isso, terminou meu relacionamento com aquele mestre, mas até hoje eu me lembro de suas palavras: “O nome da nossa tradição é Gyokushin Ryu. Esse nome está escrito com caracteres que significam ‘Espírito Esférico’. A bola vai rolar livremente. Não importa qual lado seja impulsionada, ela rola sempre. É justamente desse tipo de espírito verdadeiro que Gyokushin Ryu procura imbuir seu praticantes. Uma vez atingido esse ponto, nada neste mundo irá desapontar você”. Naquele tempo, eu era uma criança e não entendia muito bem o que ele queria dizer. Eu simplesmente imaginava um coração ou um espírito rolando aqui e ali. Somente após ter completado 50 anos eu pude entender o real significado do “espírito esférico Gyokushin”.

Se você não dedicar 50 anos aquele estudo, você não o compreenderá. Eu esqueci isso por muitos anos.



Quais outras artes marciais o senhor praticou?



Eu também pratiquei Kendo. Eu esqueci o nome do meu mestre, mas nunca esquecerei as coisas que ele disse. Ele disse-me uma vez que: “Quando um tinha 13 anos, eu participei da famosa Batalha do Ueno. Olhe para você! Você tem 12 anos, certo? Como você espera ser capaz de manejar sua espada no próximo ano, sendo tão fraco?”. Esse era o tipo de mestre que eu tinha no Lendo. Assim, durante o período em que eu pratiquei Judô sob a orientação do “Demônio” Tokusanbo, eu também praticava Gyokushin-Ryu Jujutsu. Esse método utiliza várias técnicas de sacrifício e algumas outras muito similares às do Aikido. Posteriormente, em maio de 1926, eu ingressei na Kodokan e já em junho fui oficialmente promovido à faixa preta 1° Dan. Isso deveu-se ao fato de que em todas as competições de que havia participado eu havia vencido todos os faixas pretas que lutaram comigo. Por isso, eu achava que já possuía todas as qualificações para faixa preta mesmo antes de recebê-la. Foi também por isso que eu recebi o 2° Dan no mês de janeiro subseqüente, apenas 6 meses depois. Um ano mais tarde, eu recebi o 3° Dan. Eu acho que havia demonstrado estar à altura da maioria dos faixas pretas 3° Dan durante todo o tempo em que fui 2° Dan. Afinal, eu vinha praticando Judô antes mesmo de iniciar meus estudos regulares.



Que tipo de Judô era praticado na Kodokan?



Naquele tempo, uma de minhas irmãs vivia na cidade de Tsurumi, na prefeitura de Kanagawa, e ela gentilmente me convidou para morar com ela. Diariamente, eu tomava um trem para Tóquio, para praticar Judô na Kodokan. Então, tiveram início às sessões especiais de treinamento chamada “Kangeiko”. Durante 1 mês, tínhamos que iniciar nosso treinamento às 4 horas da manhã, todos os dias. Claro que não havia trens àquela hora, então eu tinha que caminhar até o Dojo. Era uma distância considerável entra minha casa em Tsurumi e a Kodokan, o que me obrigava a sair à meia noite para chegar a tempo. Lá ia eu margeando a estrada de Tokaido, arrastando meus tamancos de madeira. À medida que me aproximava da Kodokan, ia encontrando outros alunos, com suas faixas pretas sobre os ombros, chegando diligentemente de outros lugares. Alguns pareciam estar competindo comigo par achegar antes. Bem, eu estava na estrada desde a meia noite e não iria deixá-los me vencer, então começava a correr. Quando me viam correr, começavam também a fazê-lo. (risos)



De qualquer modo, eu havia andando e corrido até a Kodokan, e, quando chegava lá, estava coberto de suor. Havia um poço lá, mas a água da superfície estava geralmente congelada. Eu quebrava o gelo e me lavava da cabeça aos pés antes de correr para o Dojo. Bem, um dia eu estava junto ao poço quando percebi a falta do balde que costumava ficar lá.Alguém havia removido de lá. Eu não podia perder tempo procurando-o ou chegando atrasado para o início do treinamento, então pulei dentro do poço, onde permaneci por alguns segundos. Quando estava saindo do poço, percebi que alguém estava me ajudando a fazer isso, puxando-me pelo braço. Quando me virei para agradecer, quem vocês acha quem era? O Sensei de todos nós, Mifune. Fiquei atônito e momentaneamente sem ação. Eu já tinha removido o gelo e tudo mais. Finalmente, consegui dizer “Bom dia”. O Sensei olhava-me fixamente. “Mas o que é que você está fazendo?”, perguntou-me. Eu respondi acovardado que estava saindo da água. Talvez o Sensei tenha sentido pena de mim, pois me deu uma pequena toalha disse que eu me enxugasse. Então perguntou por que eu estava me lavando naquela água fria. Eu expliquei que tinha que vir caminhando de Tsurumi todos os dias, ao que Sensei Mifune me falou: “Esta noite você pode ficar na minha casa. Seu bobo, arruinando sua saúde dessa maneira”.



A partir daquele dia, eu permaneci na casa do Sensei Mifune. Na prática, eu me tornei um de seus dependentes. Naquela época, havia centenas de alunos que viviam às suas custas para poderem aprender Judô, mas logicamente o Sensei não poderia hospedar a todos. Quando passei a morar em sua casa, já havia três alunos vivendo lá. Disseram-me para ocupar um quarto de apenas três “Mats” (equivalente a 6 metros quadrados), onde já ocupado por mais dois outros colegas. E eles eram grandes! Praticamente só havia espaço para estender minha roupa de cama, então a única coisa que eu podia fazer era deitas entre eles e dormir. Eu dormia razoavelmente aquecido, pois as cobertas deles ficavam também sobre mim, mas, sempre que eles se mexiam, eles chutavam os cobertores para os lados. Toda hora eu acordava com frio por causa disso. (risos)



Como era o seu relacionamento com o Sensei Mifune?



Durante o dia, o Sensei Mifune freqüentemente nos contava histórias sobre outras artes marciais. Isso era bom, especialmente para mim. Foi assim que aprendi tudo sobre Judô. Naquela época, dizia-se que era impossível para um praticante obter sua licença se apenas fosse ao dojo treinar e, em seguida, voltasse para casa. Em outras palavras, tal aluno nunca receberia o certificado de mestre-instrutor de Menkyo Kaiden. Os alunos de fora vinham treinar por dia, tendo, assim, a chance de ouvir todas as histórias que seu mestre tem para contar. Eu, assim, aprendi muito. E é assim que se começa a entender o lado espiritual da arte marcial.



Essa é a história do Sensei Jigoro kano. Dentre seus muitos alunos, havia um homem excelente, chamado Okabe, que era realmente muito inteligente e um forte judoca. Entretanto, o Sr. Okabe insistia em dizer que o judô era um esporte. “Se o judô não é um esporte, então não é nada!”, dizia. Bem, o Sensei Kano gostava verdadeiramente daquele aluno, mas achava, do fundo do seu coração, que o judô não devia se tornar um esporte simplesmente. Como você sabe, há em outros países igrejas especializadas no ensino de como conduzir uma vida dentro dos padrões morais. No Japão, não temos esse tipo de instituição voltada para o ensino da moralidade, portanto, o Sensei Kano ao criar o judô, tencionava aliar a um método de treinamento físico princípios e práticas morais. Enquanto isso, seus discípulos estavam se dedicando exaustivamente a seus estudos regulares e, em decorrência, muitos adoeceram. Um grande número deles morreu em conseqüência de moléstias pulmonares.



O Sensei Kano transformou as antigas técnicas do Jujutsu passaram a constituir o judô; ou seja, ele adaptou aquelas antigas técnicas de forma que pudessem ser praticadas como um esporte ao invés de restringi-las à atmosfera específica de um dojo. O “do” da antiga palavra budo (caminho marcial) tem o significado de “virtude” ou “moralidade”. Isso é a essência do dojo. O dojo é um lugar onde você cultiva a virtude enquanto pratica técnicas marciais. O que correlacionado com virtude. Foi por isso que um dos alunos do Sensei Kano tinha aquelas discussões acaloradas. Não importava quantas vezes o Sensei expusesse seu ponto de vista, o outro insistia em dizer que “esse tipo ambíguo de arte é inaceitável. As formas de ganhar ou perder no judô são típicas de um esporte, já desenvolvimento de personalidade é outra coisa bem específica. Ninguém precisa cultivar valores normais ao praticar um esporte. Isso aparece normalmente durante a prática”. Posteriormente, aquele aluno graduou-se em educação física. Ele era extremamente teórico.



Tudo aquilo fez o Sensei Kano pensar. Se a pessoa apenas pratica judô, essa arte tornou-se apenas um esporte. Então, decidiu introduzir treinamento de artes marciais na Kodokan e construiu um dojo específico para isso. Ele esperava mostrar nas artes marciais pré-moderna a todos e aqueles que estivessem interessados poderiam praticá-las livremente. Ele achava que se pudesse transmitir aos praticantes o verdadeiro espírito das artes marciais, esses se tornavam capazes de desenvolver e praticar o espírito do budo. Foi assim que ele fundou a Kobudo Kenkyokai (associação de pesquisa das artes marciais).



O senhor também estava ligado àquele grupo?



Eu morava na casa do Sensei Mifune durante aquele período e também sentia a necessidade de inclusão do treinamento espiritual, então me juntei ao grupo. Naquela época, eu era também faixa preta 2° Dan de Kendo, então sabia como manejar uma espada, realizar o trabalho dos pés e utilizar toda a extensão dos meus braços. Ou seja, eu era completamente diferente dos instrutores que só haviam praticado judô. Foi por isso que, após iniciar os treinamentos com o grupo, fui notado pelo Sensei Kano. “Você tem a postura de um líder”, falou-me. Depois disso, eu tinha que reportar ao Sensei maués progressos no treinamento, uma ou duas vezes por mês. Um dia, enquanto fazia meu repouso, o Sensei me disse: “No futuro, você será o principal professor da Kodokan”. Eu fiquei atônito. Naquele tempo, encontravam-se entre os grandes mestres pessoas como Sensei Mifune e Sensei Tokusanbo. Eu ficava admirando se um dia pudesse alcançar o nível de ambos. Então, um dia, após terminar meu reporte, o Sensei me perguntou: “Qual o sentido que você dá ao caractere ju na palavra judô?”. Pra mim, significa suave ou flexível, respondi. “Você pode praticar judô apenas por ser suave ou flexível?”, replicou ele. Agora eu havia sido apanhado. Claro, se você for apenas suave, você irá perder sempre. O Sensei continuou: “O que você está praticando não é judô e sim Godo (caminho duro) e, se continuar assim, nunca irá praticá-lo. A rigidez acompanha a flexibilidade e a flexibilidade acompanha a rigidez. O Jujutsu é o caminho através do qual se combinam os conceitos essenciais de maciez e dureza”. Naquela época, eu era apenas um rapaz de 21 anos e o ouvia com a sensação de haver entendido ao menos em parte o que o mestre estava tentando me transmitir, embora ele insistisse em dizer que eu ainda não o havia entendido. Considerando-se que “ju” é algo bem racional, isso é quase um conceito intelectual.



O que o senhor tem a nos dizer sobre sua associação com o Sensei Kano?



Em uma ocasião, participei de um torneio de judô promovido pela Nihou University. Participei e venci. Na tarde do mesmo dia, estava sendo realizado um torneio de judô na mesma universidade, do qual também participei e venci. Lá estava eu, ganhando duas medalhas no mesmo dia. Eu era ainda uma criança, e, feliz com o acontecido, que me esqueci completamente de meu compromisso com o Sensei Kano e voltei correndo para casa. Quando lá cheguei, minha irmã me perguntou sobre meu compromisso com o Sensei Kano. Saí correndo de casa e pulei em um trem, de volta à cidade, antes que me desse conta que havia esquecido a carteira. De cabeça baixa, eu poderia pedir ao condutor que me deixasse saltar, mas o problema é que não havia como mudar de trem no meio do caminho. Enquanto eu não sabia que estava sem dinheiro, não tive nenhum problema em tomar o trem, como habitualmente. Agora, entretanto, eu sabia de antemão que não poderia pagar o bilhete foi muito difícil conter meu nervosismo. (risos) Eu hesitava, mas finalmente expliquei ao novo condutor o que havia acontecido, e ele gentilmente permitiu que eu completasse a viagem. Eu nunca vou esquecer aquela terrível sensação.



Enfim, eu corri para a casa do Sensei, chegando às 16:30hs para um encontro marcado para as 14 horas. O Sensei era um homem muito ocupado. Ele é do tipo que planeja seu dia de trabalho segundo a segundo, então eu estava preocupado sobre quão duramente eu seria repreendido desta vez. Foi com pensamento desse tipo que fui ao seu encontro. O Sensei tinha 70 anos naquela época, e assim que soube que eu chegava, vestiu um hakama para me receber. Na realidade, ele se vestiu formalmente apenas para receber uma pessoa 50 anos mais jovem. Ele me encarou por alguns segundos e depois me perguntou se estava doente. Eu comecei a lhe contar com havia ganhado duas medalhas. Acho que havia um certo tom de orgulho em minha voz, pois o tom de voz do Sensei mudou completamente. “O que você pensa que esses torneios são, afinal de conta?”. Eu havia vencido, então não podia atinar com o motivo pelo qual ele não estava contente com isso. Ele continuou: “Nós escrevemos a palavra shiai (torneio) com caracteres que significam” tentar juntos “. Shiai´s são parte do treinamento em artes marciais e servem para você medir periodicamente os limites de seus pontos fortes. Você precisa fazer isso duas vezes no mesmo dia?”. Eu havia participado para vencer. Não havia nem pensado em meus pontos fortes. O Sensei voltou à carga: “Você tem uma idéia errada sobre o judô. Competição não é algo de que se participe por diversão. Com esse tipo de atitude, você nunca será um bom instrutor”. A despeito da grande diferença de idade entre nós, o Sensei Kano tinha começado a me educar para que me tornasse um instrutor.



Naquela época, eu estava também treinando no Katoni Shinto-Ryu. Essa arte utilizava a espada, o bastão (bo), naginata, lança, espada curta, duas espadas juntas e técnicas de jujutsu. Eu ainda praticava kendo, então circulava entre vários dojos e treinava diariamente por cinco ou seis horas. Além de tudo isso, antes do meu desjejum eu aprendia algo chamado Muso-ryu Jojotsu. Eu fiquei forte rapidamente. Foi mais ou menos nessa época que o Sensei Kano foi assistira uma demonstração feita por Sensei Ueshiba, a convite de Isamu Tekeshita, um almirante. O Sensei Kano estava muito impressionado. Ele disse ao Sensei Ueshiba gostaria de vê-lo instruindo alguns de seus próprios discípulos se o Sensei Kano os enviasse até ele. E aconteceu que eu fui enviado.



Inicialmente, eu pensava que seria apenas mais um compromisso na minha já apertada agenda de treinamento. O Sensei Kano nos disse: “Outro dia eu tive oportunidade de conhecer as técnicas de um mestre de Jujutsu chamado Ueshiba. Eram realmente maravilhosas. Eu senti que eram as verdadeiras técnicas do Judô. Eu gostaria que Ueshiba viesse aqui na Kodokan ensiná-las, mas ele é um famoso mestre e, em sua própria defesa, isso seria impossível. Por isso, consegui que alguns de nossos alunos fossem ao dojo dele para serem treinados”. Com um olhar, ele demonstrou que gostaria que eu fosse um daqueles alunos, assim, eu e um amigo chamado Takeda fomos os escolhidos.



Isso se passou em 1930, quando o Sensei Ueshiba ainda não tinha um dojo próprio e usava a sala de estar de uma residência no bairro de Mejiro, em Tóquio, para dar as suas aulas. Mas imediatamente após começarmos a treinar lá, mudamos-nos para o recém construído Ushigome Dojo (parte do atual Hombu Dojo). Por ocasião do término da montagem daquele novo dojo, Hajime Iwata, da prefeitura de Aichi, um amigo que era um antigo lutador de sumo, e o jovem Tsutomu yukawa, também treinavam lá. O grupo era constituído por cinco ou seis pessoas. O Sensei Ueshiba disse-me, sendo eu um recém chegado: “Esses uchideshi são ainda muitos jovens e eu gostaria que você os supervisionasse”. Eu tinha 24 anos, na época. Eu discuti esse convite com o Sensei Kano, sendo minha opinião: “O Sensei Ueshiba está me valorizando e eu devo me tornar um menkyo kaiden me curto espaço de tempo. O que o senhor acharia se ele me convidasse a morar com ele e me tornar um supervisor de grupo dos alunos jovens?”. O Sensei Kano me respondeu: “Dizem que lá não há licença para professores de fora, então acho que está bem. Mas não se esqueça de continuar a me fazer os seus reportes mensais”.



Um dia, fui chamado pelo almirante Takeshita. Ele queria me dizer que o Sensei Ueshiba estava interessado em me tornar seu genro adotivo (eu devia me casar com sua filha e adotar o sobrenome Ueshiba). Que eu faria agora? Eu tinha recebido proposta semelhante do Katoni Shinto-ryu, onde havia o presidente de uma campanha farmacêutica, que era vizinho de minha irmã, o qual havia viajado até a prefeitura se Shizuoka, somente para perguntar à minha família se eu podia ingressas na sua, através do casamento. Pessoalmente, as únicas experiências que eu havia tido com garotas limitavam-se às conversas com minhas irmãs, e nunca havia pensado em me casar, assim, terminei por recusar as três ofertas.



Foi por aquela época que eu fiquei seriamente doente. A canja foi puro excesso de trabalho. Deixei de treinar por um mês, que aproveitei para dormir. O Sensei Kano estava realmente preocupado comigo, chegando a providenciar minha hospitalização, cujas despesas serem cobertas pela Kodokan. Mas meu irmão veio de Shizuoka para me buscar, então eu expressei meus profundos agradecimentos ao Sensei Kano e deixei Tóquio. Eu me internei no Hospital Municipal de Shizuoka, onde permaneci por três meses. Os médicos ficaram surpresos com a rapidez da minha recuperação. Eu estava sofrendo de pleurisia e tuberculose, mas todo dia meu médico dizia que eu estava melhor e me recuperando rapidamente.



Naquele mesmo ano meu irmão e alguns amigos haviam montado um dojo no centro da cidade, e eu acho que eles temiam que, se eu regressasse a Tóquio, acabaria morrendo. De qualquer forma, nos decidimos que, assim que eu saísse do hospital, eu iria recomeçar a treinar aos poucos, ensinando os jovens da cidade. Enquanto me recuperava, quando o Sensei Ueshiba soube disso, ele, o almirante Takeshita, o general Miura, o Sensei Shunnossuke Emoto, o sensei Yasuhiro Konishi e foram bastante gentis a ouvirem à minha cidade para a cerimônia de inauguração do dojo. Depois disso, todo mês, quando o Sensei Ueshiba ia ensinar em um dojo da região de Omoto, em Ryoto, eles faziam uma parada na minha cidade durante sua viajem de regresso. Algumas vezes ele ficava por dois ou três dias. Ele realmente gostava de mim. Ele parecia querer ficar, não tinha pressa de regressar, e às vezes sou filho Kisshomaru tinha de vir buscá-lo. Ele gostava da minha casa a esse ponto. Foi mais ou menos naquela época que ele me deu os pergaminhos de Menkyo Kaiden (diploma de mestre-instrutor). Um deles media aproximadamente dois metros de cumprimento e o outro aproximadamente três. O mais longo era intitulado “A Defesa Pessoal do Daito-ryu Aiki Jujutsu” enquanto o título do outro era “O ângulo dos ensinamentos do Daito-Ryu Aiki Jujutsu”. Penso não haver nenhuma pessoa viva atualmente que tenha recebido esse tipo de certificado das mãos do Sensei Ueshiba. O Sensei Tomiki recebeu seus pergaminhos um pouco antes de mim.



Realmente, apenas alguns dias atrás, um dos discípulos do Sensei Tomiki veio aqui e conversamos sobre muitas coisas. O Sensei Tomiki e meu irmão nasceram no mesmo dia do mesmo ano e eram amigos íntimos. Pessoalmente, eu nunca fui tão chegado a ele. Ele começou a praticar Aikido uns cinco anos antes de mim, então é um pouco mais graduado que eu. Então, novamente, ele é um acadêmico e eu aprendi muita coisa através de seus escritos. Mas se eu acho que algo está errado, sou o tipo de pessoa que diz isso diretamente. Eu sempre expressei minha opinião francamente, mesmo para o Sensei Ueshiba. Então, após ter sido xingado por isso, eu deveria reconsiderar os acontecimentos daquela época.



Sendo fidedigno, eu, em duas oportunidades, levei a melhor em discussões com o Sensei Tomiki. Uma vez foi sobre a maneira de sacar a espada de sua bainha. Quando ele estava demonstrando com fazer isso, eu corrigi os erros do seu método. A outra está relacionada com seus esforços em converter as artes marciais em esporte. Eu lhe disse: “Sensei, o senhor pode falar sobre a conversão de artes marciais em esporte, mas não temos a intenção de fazer isso”. Ele replicou: “Mas se não convertemos as artes marciais em esporte, o aikido nunca irá para frente e morrerá”. Meu sentimento sobre esse assunto é exatamente o oposto. Eu penso que o dia em que as artes marciais virarem esporte, será o dia em que elas morrerão. Não é uma consideração sobre o que realmente são das artes marciais japonesas deve sempre fluir para o oceano dos esportes ele certamente estará poluindo antes de percorrida os primeiros 30 metros.



Ambos, Sensei Kano s Sensei Ueshiba, insistiam que o método de ensino das artes marciais nunca deveria se converter em um tipo de jogo. O famoso historiador Arnold Toynbee escreveu certa vez: “Civilização é algo nascido em um determinado pais. Mas se crescer e se espalhar por toda a parte deixará de existir em seu local de origem. Mais ainda, nunca mais voltará a existir naquele local de origem. Isso é um fato histórico”. Budismo na Índia, cristianismo em Israel e confucionismo na China são todos bons exemplos daquela afirmação. Isso é algo que deveria ser monitorado em relação às artes marciais. Se o aikido e o judô vierem a fazer parte do mundo dos esportes, eles certamente serão distorcidos pelos esquemas que envolvem vencedores e perdedores, fortes e fracos. As artes marciais se extinguirão. É ótimo para as artes marciais japonesas se espalharem pelo mundo, mas isso nunca deveria acontecer. Através de um esquema de jogo.



Se as artes marciais não enfatizarem o desenvolvimento do caráter, então irão causar condutas inapropriadas, especialmente entre os jovens. Quando eu disse isso ao Sensei Tomiki, ele não conseguiu replicar. Ele não disse nada. Ele abriu como se não valesse a pena responder a um teimoso como eu e que o que quer que os jovens fizessem, para ele estaria tudo bom. Uma das causas de delinqüência juvenil é a segregação de um membro de seu círculo de amigos ou de seu grupo esportivo. Treinadores, entretanto, estão interessados apenas no treinamento dos atletas e nas questões relacionadas às vitórias e derrotas. Eles não se importam naqueles que deixam o time, porque só estão interessados em vencer. Nos esportes, não há lugares para os fracos ou menos competentes.



Pessoalmente, eu preferiria que a maioria dos esportes se transformasse em artes marciais, assim o desenvolvimento espiritual e a prevenção da má conduta fariam parte do seu treinamento. Eles deveriam estar mais preocupados em formar jovens que não causassem problemas aos seus irmãos e na promoção de bom relacionamento entre maridos e mulheres.



Se você fala em “amor”, tem que admitir que o contrário é “ódio”.



Por outro lado se falamos em harmonia, estamos falando se algo que inclui noções de razão. Amor é uma emoção que não pode existir sozinha. Precisa estar firmemente circunscrita à própria etiqueta (reiji). Amor precisa incluir comportamento adequado. A antiga afirmação “mesmo entre os melhores amigos, a etiqueta deve prevalecer” se aplica ao caso. Mesmo entre marido e mulher, é necessária. Começa com um “bom dia” todas as manhãs. Recentemente, a correta etiqueta tem dado lugar a simples demonstração de emoções. Os casais imaginam que tudo irá bem enquanto eles estiverem bem. Isso é o que conta, mas no mundo real não é o comportamento mais adequado. De acordo com um velho verso japonês: “Se você examinar cuidadosamente o ideograma utilizado para ‘pessoa’, notará que se parece com dois movimentos mutuamente dependentes”. Seres humanos são animais sociais. Nós podemos comer arroz por que há fazendeiros para produzi-lo. Sem eles, teríamos que produzir nossa própria comida. Em outras palavras, nós ajudamos uns aos outros. O conceito de “você” e “eu”, isoladamente, é incorreto. Harmonia consiste em emoção e razão. Essa é a natureza da harmonia. As artes marciais ensinam etiqueta e razão. A forma de direcionar o espírito de uma pessoa também é aprendida através das artes marciais. Em paises estrangeiros, isso é ensinado em igrejas.



Há 30 anos, passei dois anos e meio na França ensinando judô. Um dia, durante uma sessão especial de treinamento para competição, eu disse aos alunos que deveriam treinar também no domingo. Os alunos me disseram que não poderiam vir, pois teriam que ir à igreja. Fiquei muito surpreso ao ouvir isso. Não imaginava que os jovens fossem à igreja. Eu lhes perguntei se eles ao ficavam entediados ao ouvir sempre as mesmas histórias sobre Deus. Eles me responderam: “Sensei, seres humanos são animais esquecidos”. Entendo, pensei. Eu às vezes me esqueço dos ensinamentos do meu Sensei e dos Kamis (deuses) e discuto com minha mulher e meus irmãos. Esquecidos... Eu realmente acho que meus alunos estavam certos. Eu estava envergonhado e me vi refletindo sobre minha conduta. Temos que ouvir freqüentemente histórias sobre os Kamis porque os seres humanos são esquecidos. Então, pela primeira eu compreendi a importância que o Sensei Kano dava ao “caminho” quando estava ensinando judô. E porque o Sensei Ueshiba freqüentemente mencionava o kami enquanto estava ensinando aikido. Eu percebi que esse é o verdadeiro significado das artes marciais.



(Traduzido do inglês para o português por Fernando Lopes Penteado-Instituto Takemussu shodan)