"A meta final do JUDÔ KODOKAN é o aperfeiçoamento do indivíduo por si mesmo, desenvolvendo um espírito que deve buscar a verdade através de esforço constante e da sua total abnegação, para contribuir na prosperidade e no bem estar da raça humana" "Nada sob o céu é mais importante que a educação. Os ensinamentos de uma pessoa virtuosa podem influênciar uma multidão; aquilo que foi bem aprendido por uma geração pode ser transmitidas a outras cem." Jigoro Kano

SENSEI KASTRIOT MEHDI Texto de Roberto Pedreira

0 comentários sábado, 26 de abril de 2008 às 19:45 - Edit entry?

Eu tinha passado pela ACADEMIA MEHDI DE JUDÔ na Rua Visconde de Pirajá,411, em I
panema mais vezes do que pudesse contar. Sylvio Behring recomendou-me que eu fos
se falar com o MEHDI, assim como outras pessoas. MEHDI sabe tudo. Ele está sempre por aqui.
Num final de tarde, a porta estava aberta e eu parei, MEHDI estava descansando no tatame. Eu me apresentei no corredor, mas ele já sabia que eu estava lá. Eu lhe disse que morava no Japão e que gostaria de saber como o JUDÔ era praticado no Brasil. Ele gostou.
KASTRIOT GEORGE MEHDI veio para o Brasil de férias da costa sul da França, perto de
Cannes. Ele tinha estudado o JUDÔ na França e queria continuar. Na época, havia JUDÔ em SÃO PAULO, na comunidade japonêsa, no RJ, o que mais se aproximava era o JIU-JITSU.
O lugar para aprender era o número 151 da Avenida Rio Branco, no centro. Era lá que
Carlos e Helio Gracie tinham uma grande academia. Ele se inscreveu.
Carlos, Helio, Robson, Carlson e os outros instrutores enfatizavam a luta no chão. Eles diziam que esta era mais efetiva e realista. Numa briga de rua ou situação de defesa pessoal, quatro coisas eram mais esperadas. Primeiro, o atacante seria mais forte. Segundo, ele estaria atacando. Terceiro, quem fosse atacado e machucado, tentaria agarra-se para escapar. E quarto, cedo ou tarde, um dos dois ou ambos iriam para o chão. O sistemaGracie era baseado nesta quatro premissas.
A interpretação do MEHDI era diferente. Os Gracie enfatizavam a luta de chão porque eles não sabiam aplicar quedas. Porque sujar as roupas , se isto não é necessário, di-
zia MEHDI.
A visão do MEHDI era que uma queda bem aplicada tornava a luta de chãodesnecessá
ria. E caso isto acontecesse, voce cairia melhor posicionado depois de jogar o seu opo
nente e colocá-lo no chão. Ukemi ou não, isto machuca.
Uma correta execução de uma queda também é bonita de se ter, MEHDI acreditava; considerando que ter alguém entre as suas pernas numa luta(para uma mulher numa situação dificil na rua, também é válido). Mas isto vem do treinamento de um artista marcial.
Romero Jacaré e seus alunos, Sylvio Behring e Rickson Gracie acreditavam que MEHDI tinha razão.
De qualquer forma, quando dois lutadores estão se medindo e as regras permitem à eles estar na guarda é invitável que isto aconteça, isto é uma questão de regras e não de técnicas, Sylvio diz e MEHDI concorda plenamente. São as regras que fazem o que o JIU-JITSU o que ele é e o que ele não é. É precisamente o que está errado. Esta é a questão.
Não era apenas a ênfase na luta de chão que incomodava MEHDI, era os próprios Gracie.
Lutar deitado. Eu não gosto disso. JUDÔ forma pessoas, não pessoas que brigam na rua.
Ele menciona a mentira dos Gracie que diziam que um campeão francês de JUDÔ estava aprendendo com ele. Ele era apenas um iniciante, não um campeão, diz MEHDI.
(Qualquer pessoa assistindo Gracie em Ação 1 e 2 pode ter detectado uma certa inclinação em exagerar as qualidades e habilidades dos oponentes de sua familia e seus representantes. Roryon descreve os caras que desafiaram à ele e seus irmãos(ou que aceitaram seu desafio)nos Estados Unidos, como mestres,experts, cam
peões, ou no mínimo instrutores. No Brasil, seus oponentes são chamados de palhaços.

Para MEHDI, o simples fato de chamar o seu estilo de JIU-JITSU, era cara evidência de desonestidade. É tudo JUDÔ, ele diz.
(MEHDI pode estar certo de que as técnicas do JUDÔ são realmente JUDÔ. O pessoal do JIU-JITSU é muito orgulhoso da estória do encontro de Carlos Gracie com MITSUYO MAEDA. Voce pode ver muitas teçnicas do JIU-JITSU nos filmes antigos do KOSEN JUDÔ,porém voce não verá nenhuma destas técnicas em nenhum dojô de JUDÔ. E o pior, é que voce não verá nestas filmagens e livros, como organizar estas técnicas.. É ái, que os brasileiros levaram o newaza à um nivel mais elevado).
MEHDI desistiu do Gracie JIU-JITSU e foi para o Japão imediatamente após o fim da ocupação americana em 1952. Entre outros, ele treinou com Kimura Masahiko, que tinha derro tado Helio ano anterior. Ele ficou 5 anos como aluno da Universidade de Tenry, em Nara.
A luta de kIMURA com Helio, foi uma brincadeira,diz MEHDI. kimura concordou em ficar até os 10 minutos parado, e em respeito ao dinheiro pago e apostado pela torcida, começaria a lutar a partir daí. MEHDI imita exageradamente a postura grosseira de Helio. 13 minutos de luta, Kimura finaliza Helio com uma chave de ombro, a qual os lutadores de JIU-JITSU chamam de KIMURA , em homenagem ao japonês(...não chame isto de kimura,o correto é ude-garami, ele corrige. Havia muita conversa para se alterar o resultado da luta,mas a embaixada japonêsa advertiu Kimura de que ele não seria bem recebido no retorno ao Japão, caso ele perdesse. Uma certa dose de coreo-
grafia deria aceita, mas perder para um estrangeiro seria demais.
Como outro exemplo da flexibilidade dos Gracie, com exatidão, MEHDI diz que Kimura pesava 80 kg e não 100 kg, como alguns diziam(Ele me mostrou uma fotografia do mo
mento da luta, eles pareciam ser da mesma altura e peso. MEHDI tem 1,75 e pesa 80
kg, por outro lado Kimura pesava 86 kg na sua última luta de JUDÔ em TOQUIO, em
1949. É possivel que ele tenha aumentado alguns quilos durante os dois anos entre
as duas lutas.
MEHDI, que recebeu o oitavo dan da KODOKAN em 1979, não é simplesmente uma enciclopédia de técnicas(de acordo com Cleiber Maia, faixa preta em JUDÔ e JIU-JITSU,
campeão brasileiro de WRESTLING FREE STYLE,ele era um competidor bem sucedido, pois
dominou o JUDÔ BRASILEIRO por anos.
Mike Swain visitou o dojô de MEHDI após vencer o mundial na categoria até 71 kg. Cam-
peonato em 1987(sua mulher era brasileira, do RJ). Swain, era por demais confiante.En-
quanto praticava uma queda, MEHDI corrigiu sua pegada. Swain ràpidamente convidou,
ou pràticamente desafiou MEHDI para um randori. MEHDI arremessou Swain várias vezes
ao chão e na parede(esta estória foi recontada por Sylvio Behring e Cleiber Maia; embora
ninguém pudesse dizer quem era o campeão americano de JUDÔ, MEHDI provou através
das palavras de Swain aos seus alunos,"VOCES NÃO SABEM A SORTE QUE TEM EM SEREM
ALUNOS DO PROFESSOR MEHDI, COM TODO CONHECIMENTO E TÉCNICA).
MEHDI estava relutante em falar sobre os Gracie. Não é segredo no RJ de que ele não gosta dos Gracie. Porque escrever sobre os Gracie, se há grandes campeões japoneses,
ele perguntou. Porque eu estou escrevendo sobre o BJJ, expliquei.. Mas porque? Pergun-
tou demosntrando perplexibilidade. Ele estava reticente em relação à ele próprio.Não era
porque ele não gostasse do JIU-JITSU, era porque ele gostava do Marcelo Behring(Marce
lo Behring era melhor na luta de chão do que o Rickson, dizia MEHDI. Sylvio dizia que isto
não era verdade. Voce tem que se lembrar, MEHDI adorava o meu irmão e odiava os Gra-
cie).
MEHDI adorava a mentalidade japonêsa. Eram muitas quedas, imobilizações, estrangu
lamentos e pegadas que ele ensinava. Mario Sperry dizia que não aprendeu apenas JUDÔ e JIU-JITSU com ele, aprendeu também respeito e honra.
Poderia ser a mentalidade brasileira que ele não gostava? Ele nega. Brasileiros são
indisciplinados(comparando com os japoneses quem não é....)mas MEHDI gosta deles.Ele não gostava dos Gracie, não gostava de sua mentalidade, pois mentem sempre.
Ele também acha que é ridículo um mero faixa preta ensinar algo a alguém. No Japão,um faixa preta precisa ter de 20 à 30 anos de experiência para poder ensinar. Eu não disse à ele que muitos faixas azul dão aulas de JIU-JITSU em muitos lugares. Não no RJ. Este era o ponto. No Japão,os professores tem de 20 à 30 anos de experiência porque existem muitos lutadores de JUDÔ, bons; o RJ é cheio de bons lutadores de JIU-JITSU. Eu suspeito que MEHDI não percebeu que um faixa preta de JIU-JITSU representa seis, sete ou mais anos de estudo, enquanto faixas preta de JUDÔ, no Japão, são agraciados rotineiramente em dois anos e as vezes em menos de um, no mínimo.
Embora MEHDI não gostasse dos Gracie, ele nunca se negou à ensinar seus descen-
dentes e alunos.
Além de Rickson e os irmãos Behring, Carlson Jr. Murilo Bustamante, Mario Sperry, Wallid Ismail, assim como tantos outros. De acordo com um instrutor de JIU-JITSU(tam
bém aluno de MEHDI)Rolls Gracie também aprendeu JUDÔ com ele. E MEHDI dividiu seus conhecimentos com a comunidade do JIU-JITSU. Considerou isto um privilégio(por treiná-los).
Onde está o seu gi? Ele perguntou. Eu estava cauteloso. O ju do JUDÔ representava gentileza, mas não há gentileza alguma em ser arremessado sobre a cabeça de cos-
tas, no chão ou na parede. De qualquer forma eu queria conhecer melhor o MEHDI, e
ele se mostrou interessado em me ter em sua aula. Eu aceitei.
Muitos me disseram que aulas do MEHDI eram intensas.O aquecimento já era suficien-
te para apagar qualquer um se este não estivesse em forma. Eu assisti uma aula para comprovar isto. De qualquer forma a aula foi de 6 às 8 e 30 hs e era bem estruturada. A primeira parte, 30 minutos, era de aquecimento. A segunda parte era o aprendizado de novas técnicas(ou a revisão destas). A terceira parte era o uchikomi e a quarta, o randori.
Este é o procedimento em todo o dojô de JUDÔ, em todo lugar. Isto leva cerca de 1 hora e aqueles que desejam ficar depois da hora podem permanecer e treinar aquilo que achar melhor. Pode-se chegar a qualquer momento. Em outras palavras, significa que voce pode evitar parte do aquecimento. Muitos chegam tarde e vão embora cedo. As crianças chegam cedo. MEHDI estava num banco conversando comigo, enquanto is-
so dava ordens e corrigia o posicionamento de alguns.O aquecimento era puxado por um faixa preta adulto. Quando o uchikomi começou, ele colocou uma joelheira. Eu peguntei. JUDÔ machuca?
Ele disse:_Sim...
Eu fui no dia seguinte, um pouco tarde(havia planejado visitar a academia do Alexan-
dre Paiva depois do treino e já imaginava ser convidado para um rola). O máximo que consegui foi evitar 30 voltas no dojô, mas isto já ajudou. MEHDI me apresentou a turma e disse que em minha homenagem seria uma aula especial. E perguntou-me o que eu queria aprender. Eu disse, newaza, especìficamente a técnica que eu vi no dia anterior um estrangulamento como contra-golpe à um seoi- nague do oponente.
MEHDI também demonstrou um estranghulamento bem doloroso,o qual Álvaro Barreto demonstrara dias atrás, e uma variação da KIMURA(ude-garami) que funciona mesmo que o seu oponente segure a própria faixa.
O que voce achou? Perguntou-me depois. Eu disse, impressivo e interessante, eu gosto
de newaza. Nagewaza é perigoso. Eu pensava no seu assistente faixa preta que utiliza-
va uma joelheira e um protetor para o ombro. Sim, MEHDI concordou, JUDÔ era perigoso
mesmo, mas eu amo.
Eu mencionei que planejava participar de um campeonato internacional para Masters e Seniors no final do mes, e perguntei à ele sobre dicas de como me safar sendo iniciante.
Ele me sugeriu umas variações de hiza-guruma e as praticou comigo.
Cleiber Maia, assim como Sylvio Behring, Café,Mario Sperry e Mark Swain estavam certos.
MEHDI sabia tudo.
Interessante este MEHDI.....

Fonte http://www.geocities.com/global_training_report/mehdi.htm

História de um Sonho em Bizan

0 comentários sábado, 5 de abril de 2008 às 18:20 - Edit entry?

"A História de um sonho em Bizan" é uma obra póstuma do célebre SHIRO SAIGO, que foi, a despeito de sua estatura (1m, 55), o mais lendário dos campeões da primeira época do Judo. Modêlo do romance "Sugata Sanshiro", foi em 1907 diretor do jornal "Tokyo Hinode", quando escreveu a presente novela, de um valor considerável para os judokas) .

Há algum tempo, decidí-me a contornar a península do Shimabara para caçar. A estação anunciava-se excelente, e eu tinha grandes esperanças. Foi então que lembrei-me que a dois quilômetros do castelo de "Shimabara", perto do qual encontrava-me, existia uma fonte termal chamada "Shinto", ao pé do monte "Bizan", e para lá dirigí-me, para banhar-me e repousar-me.
A fonte havia sido descoberta sete anos atrás, e, na época, era muito freqüentada. Os hotéis eram numerosos, mas a guerra Russo-Japonesa tinha destruído tudo, e não restava nada habitável. Um casal de velhos tomava conta das termas.

À soleira de seu casebre, fincado neste sítio desolado e encantador, a velha guardiã vendia guloseimas às crianças que vinham a este monte sagrado. Pedi-lhe hospitalidade, e ela cedeu com bondade dizendo-me: __"Tudo o que posso oferecer-vos, se vos convêm, é um pouco de arroz e uma esteira velha, mas felizmente um velho Samurai célebre virá esta tarde para o banho, e vós podereis sempre passar a noite a conversar com ele. Agora ide banha-vos, para descansar das fadigas do caminho".

Quando o velho Samurai entrou, cumprimentei-o inclinando-me profundamente. Ao endireitar-me, vi seus cabelos de neve, sua longa barba prateada, e, nas suas vestes o emblema de seu mestre, que, se me lembro bem, era composto de um bordão levado por dois bonzos. Tudo nele respirava nobreza de espírito. Apresentei-me: __"Chamo-me Shiro Saigo, e vim aqui para caçar. Falaram-me de vós, seria indiscreto perguntar-vos vosso nome?" __ "Antes de renunciar ao mundo, respondeu-me, estava a serviço de um grande príncipe, a quem ensinava Kendo (esgrima Japonesa), e agora me chamo "Furuneko Mushinsai". Perto daqui, sobre a montanha, construí uma cabana, na qual estudo o dia inteiro".

Eu pensava: __" Que nome estranho! Se Mushinsai, por sua significação, "o que renunciou ao mundo",é, na verdade, um nome de Samurai. Furuneko, quer dizer "o velho gato" é bastante curioso. Assim, intrigado pela origem desta nome, exprimí-lhe meu pensamento: Já percorri muitos lugares, mas nunca tinha ouvido um nome semelhante!" "Tendes razão, respondeu-me sorrindo, Furunelo não é o meu nome, como não é de meus filhos.É um apelido, e tem sua origem em uma estranha aventura, da qual fui testemunhahá muito
tempo. Mas não podereirs compreender, se não tiverdes uma certa experiência das artes militares, perdoai-me, entendes?" "Sim, respondí-lhe, apaixono-me pelas artes militares desde minha infância. Durante estes últimos desesseis anos, estudei o Judô, com o Mestre Jigoro Kano (fundador do Judô), mas, lamentavelmente, não penetrei ainda todos os segredos. Peço-vos, contai-me a história de vosso nome, ouvi-la de vossa boca será para mim uma grande alegria". "Está bem, disse o velho Samurai depois de um instante de reflexão, contar-vos-ei".



" Quando era muito jovem ainda, há muito tempo, praticava as artes guerreiras. Uma tarde, não sei de que maneira, apareceu em meu quarto um enorme rato. Fui logo buscar meu gato "Tama", muito guloso de ratos, mas, assim que estiveram frente a frente, o rato saltou-lhe à cabeça uma, duas, três vêzes, com a rapidez de uma flexa... e, estou pesaroso de dizê-lo, meu gato tão forte, mordido no focinho, fugiu.
Quatro outros gatos, célebres por sua coragem, foram postos em fuga do mesmo modo. Todos, com ferimentos na garganta, olhos e patas, tinham um aspecto lamentável. Eu estava estupefato, e cheguei à conclusão de que tinha sido batidos porque tinham sentido medo. Então, tomei da espada com a qual praticava Kendo há bastante tempo e com ardor, mas no momento de ser golpeado mortalmente o rato esquivou-se. Enervei-me, batendo à direita, à esquerda, para frente, para trás, mas o rato evitava os golpes com a rapidez de um relâmpago. Uma vez, correndo ao longo do meu sabre de bambu, saltou-me mesmo em plena face, e, bravo guerreiro que sou, achei-me trêmulo e exausto.
Justamente então, um vizinho que tinha sido atraído pelo ruído, disse-me: __"Conheço um gato tão valente que não tem rval, vou buscá-lo e podereis dormir tranqüilo". Confuso por ter deixado que me vissem naquele estado, aceitei. O gato que trouxe-me era muito velho. Eu não podia, à primeira vista, esperar nada dele: suas presas e garras já desgastados e tinha, por cima, os olhos lacrimejantes. Parecia mesmo incapaz de correr.
Não pensei nem um instante que pudesse matar o tal rato mordendo-o, mas desde que tinham assegurado sua coragem, talvez, apesar de tudo, tivesse uma técnica pessoal para pegar ratos. Coloquei-o pois em meu quarto. Por mais estranho que seja, o grande rato que tinha posto em fuga os jovens gatos... e eu próprio, hábil kendoka, ficou todo encolhido de medo em um canto. O velho gato, avançando com calma, comeu-o sem que ele opusesse a menor resistência! Tinha eu a impressão de que havia sonhado.

Era realmente maravolhoso! Quando já estava adormecendo, tarde da noite, pareceu-me ouvir, no silêncio, o mumúrio de uma conversa no cômodo vizinho.
Quem estaria alí? Olhei furtivamente e vi... uma assembléia de gatos. O velho gato e os jovens! Tinham-no instalado no lugar de honra e, sentados diante dele, cada um cumprimentava-o curvando-se profundamente. Um deles adiantou-se e lhe disse:__ "Nascidos para pegar ratos, durante gerações aperfeiçoamos nossa técnica. Jamais até hoje tínhamos conhecido a derrota. gora, estamos todos desonrados. Entretanto triunfastes com facilidade sobre aquele rato. Será que tendes um técnica especial?"

_"Sois jovens - responde o velho gato - vosso movimentos são vivos, mas em verdade não coneceis o segredo do combate, para serdes vitoriosos. É a única razão de vossa derrota. Apesar de que vosso grau de evolução mental difira do meu, vou revelar-vos esse segredo, em verdade muito simples. Antes porém contar-me-eis a história de vossos estudos e analisareis para mim o que sentistes hoje ao atacar o rato".
Um dos mais jovens, um gato preto, avançou e disse: __"Apenas saí do ventre de minha mãe, e mal abri os olhos, já me exercitava em pegar as borboletas no céu, os passarinhos nos jardins e os camundongos na cozinha. Agora estudei muito e sou capaz de saltar um muro de dois metros de altura, posso esgueirar-me por um buraco do tamanho de um punho, correr por uma trave estreita tão bem quanto na rua, dar um salto mortal, morder, arranhar, fingir dormir para melhor surpreeender e muitas outras coisas ainda. Todos estão de acordo comigo em reconhecer meu valor, mas não compreendo a razão de minha derrota esta tarde."


O velho gato respondeu-lhe sorrindo: __"Fizestes bem em estudar os princípios e a técnica. É de fato para que todos possam abordar a verdade fundamental da "via" que os grandes mestres do passado expuseram os princípios e ensinaram a técnica. Como a "via" é contida nestes princípios, para conhecer seus segredos deveis estudar a progressão da arte. Mas quando possuis a teoria e tendes uma técinica eficiente, pensais que sois grandes mestres e que está terminado o estudo, como a rã no fundo do poço persuade-se de que o céu é muito pequeno. Ao contrário, tendes ainda que estudar para compreender que o segredo da arte não residesomente na técnica".
Um gato malhado avançou então e tomou a palavra: __"Quando comecei meu estudo, ouvi meu professor ensinar que o segredo da vitória encontra-se na força do espírito: "ki". Verifiquei que quando se combate um inimigo deve-se dominá-lo pela força do nosso espírito; ele estará então à nossa mercê. Ainda que não se faça nenhum esforço particular nesse sentido, a boa técnica estará prestes a brotar livremente, segundo as circunstâncias. Da mesma maneira, somente pelo nosso olhar carregado de "Ki", podemos paralizar o rato que corre oara seu buraco. Por isso nunca deixi de dar têmpera ao meu espírito. Atualmente meu corpo está cheio de força e parece-me que minha força estende-se ao Universo inteiro. Em combate, sempre usei esta força com sucesso. Porque estranha magia o rato escapou-me esta noite? Antes mesmo que eu tivesse tido tempo de notar sua existência, tal um fantasma, ele não estava mais no lugar onde o havia visto, deslocando-se coom uma habilidade desconcertante. Minha técnica favorita foi ineficaz, o poder de meu espírito também, e, ainda por cima, sofri uma grave derrota. Podereirs fazer o favor de esclarecer-me?"

O velho gato respondeu gravemente: __"Este poder de espírito, que tendes estudado, é uma força temporária, porque contais com ela. Nunca é bom contar com alguma coisa, quando quereis subjugar vosso inimigo e este também quer vos vencer. Se vos encontrardes face a alguém que não podeis subjugar; que acontece? Além disso, se subestimais vosso inimigo ele pode muito bem vos desprezar também e, se, por acaso, vos fostes superior, que farieis? Pensais sempre ser superior, isto é muito mal. O que sentistes em vosso corpo e no Universo é mesmo uma manifestação da Ënergia", mas vosso espírito está ainda longe do "Koo Zen No Ki", do filósofo Chinês Mooshi, o que quer dizer "visão larga".

Koo Zen No Ki" é seguramente a força do Universo, mas a de vosso espírito é uma força passageira. Tal a diferença entre a força constante da corrente e a da inundação da noite. Vou lembrar-vos, para terminar, o velho provébio: "O cordeiro enfurecido morde". Aconteceu a mesma coisa com o rato: no instante crítico de sua vida nada mais contou, a vida, a morte, o desejo, a vitória ou a derrota. Não procurou proteger o corpo e aí está o segredo que deu a seu espírito a têmpra do aço. É evidente que não podieis vencê-lo com vosso espírito! A natureza de vosso "Ki" é uma espécie de obstinação, uma das coisas mais prejudiciais nas Ärtes Marciais". A obstinação liga o corpo e o espírito para torná-los semelhantes a estátuas de pedra, e paraliza a ação. Eis porque acontece freqüentemente que um mais fraco vos derrote.
"Ki no kori wa teki ni kokoroo, oku monoto, kanete zo satore, asana yuna ni" significa: "A obsessão da vitória é o estado de espírito favorável a vosso inimigo, isto é, contra vós mesmos; é preciso lembrar-se disso cada manhã e cada noite".
Meu "Ki", ao contrário do vosso, é o que anima tanto a força positiva quanto a força negativa, é o espírito imóvel e eterno. Lembrai-vos de "Tanden Seika no Chikara" que vos assemelha a "colocar toda vossa força no estômago"e, guardando bem este ponto, estudai-o seriamente".
Um longo silêncio seguiu este conselho. Depois, um gato malhado, de certa idade, avançou lentamente e disse: __"Penso que o segredo da vitória reside em "Ju" e "Wa", em outras palavras, 'flexibilidade' e 'não-resistência'. Da mesma maneira que com um véu leve apara-se uma pedra, quando o inimigo avança retiro-me sem me opor e, quando me puxa, sigo-o sem resistência. Durante muito tempo exercitei-me na arte de vencer utilizando a força do adversário, conservando a minha reserva, mas esta noite não pude controlar o rato com meu "Ju" nem dominá-lo com meu "Wa". Longe de vencer, acumulei imperícias. Que devo pensar da máxima "a flexibilidade vence sempre a força": "Ju yoku go o sei su"? Quereriais esclarecer-me, para evitar que tal dúvida permaneça em mim? "
O gato velho aquieceu-se e lhe disse: __"O "Ju" e o "Wa" que foram objetos de vossos estudos não são os mesmos que permitem à inspiração natural brotar espontaneamente pelo canal do "não-eu" e da ïnocência". Os vossos foram criados fracionariamente, e são utilizados como expedientes, donde vossa derrota hoje. Quando se está animado pelo egoísmo e procura-se um ganho pessoal, a intuição do que é o melhor a fazer não pode circular em vós. Vosso espírito preso pelo egoísmo, não permite o brotar divino da inspiração natural.

A inspiração natural, saída do "não-eu" e do "não-desejo" do Universo, pelo abandono às variações naturais do poder positivo e do poder negativo, é que produz o vento e o trovão, as nuvens e a chuva, o calor e o frio, todas as coisas sem princípio. Do mesmo modo, para que o "Ju" e o "Wa" das Artes Marciais possam ser de inspiração natural, devem sair de nosso "não-eu" e de nosso "não-desejo". Lembro-me de que, em minha juventude um gato estranho habitava uma cidade vizinha. Dia e noite parecia dormir. Ter-se-ia acreditado ser um gato de pedra. Ninguém lembrava-se de tê-lo visto capturar um só rato. Entretanto, não havia nenhum rato nos arredores de sua casa, e, quando ele se encontrava em outros lugares, os ratos desapareciam. Visitei-o para interrogá-lo sobre este mistério. Não me respondeu. Várias vezes renovei minhas perguntas, mas ele guardou silêncio. Foi então que entendi claramente que quando a compreensão vem, não se fala, mas fala-se muito quando não se compreendeu.

Se o gato não falava, não era porque não podia responder-me, mas porque tinha aprofundado os princípios das Artes Marciais pelo seu desprendimento de si mesmo e de todas as coisas".

Escutava-os assim desde algum tempo. Por fim, não pude calar-me; introduzí-me entre eles, e depois de ter saudado o velho gato como se deve, disse-lhe: __"Sou um homem d'armas, e o fui sempre até o presente. Não sou um noviço nesta "via" e há bastante tempo estudo as Artes Marciais. Devo dizer-vos que, malgrado todos os meus esforços, não consegui penetrar o coração destas Artes. Sem querer, e por um feliz acaso, ouvi todos vossos diálogos, de sentido tão profundo. Pareceu-me ter sido, escutando-vos, como que uma revelação do que é o mais difícil nas Artes Guerreiras. Seria a maior satisfação para mim poder penetrar mais ainda os segredos fundamentais".

Então o velho gato desceu lentamente de seu lugar de honra e depois de cumprimentar-me bem curvado, segundo o velho protocolo, respondeu-me gravemente: __"Não sou senão humilde animal. Como poderia eu conhecer também o que podem conhecer os homens, reis da criação...? Mas ouvi outrora de meu mestre que os segredos da arte de capturar ratos e dos das Artes Marciais são os mesmos e não formam senão uma única "via". Por isso é possível que o miserável animal que sou possa ter a ousadia de ensinar alguma coisa ao homem. Se me assegurardes que não vos ofenderei, estou pronto a vos desvendar meu humilde saber, a título de informação".

Como protestei, afirmando que, longe de julgar-me ofendido, ficaria muito honrado, prossegui: __"Segundo meu pensamento, a verdadeira natureza ou essência das Artes Marciais não deve ter forma, tempo, nem odor. Deve ser alguma coisa como o vazio, excessivamente calmo. Entretanto, não é o Vazio e menos ainda a Morte, porque se encontra em todo lugar bem viva. É uma coisa incomensurável e maravilhosa que age sempre estranhamente. Quando vos exercitardes nessa essência - por incrível que possa parecer - os maus pensamentos, os desejos, tudo desaparecerá como o nevoeiro matinal dispersado pelo sol. A preocupação, a ilusão e a angústia dissolve-se-ão completamente, e sereis banhados pelo verdadeiro "Ki", penetrando no mais profundo da personalidade. Experimentareis como que uma imensa satisfação. Sentireis também que a barreira existente entre a vida e a morte, o mundo limitado funde-se por si mesma. O segredo da prática das Artes Marciais não se encontra "principalmente"na vitória ou na derrota, onde revaliza-se a técnica, mas na ação de assimilar a própria "entidade". O segredo para atingí-lo é o desprendimento de si mesmo e do desejo de ganho individual. No velho provébio, diz-se "Se tens um grão de poeira nos olhos, o mundo te parece bem pequeno. Se tudo desaparecesse de teu coração, a existência parecer-te-ia imensa".
Encontra-se também no "EKKYO" (Arte da Divinação) uma passagem particularmente intreressante pelo que nela contém: "Pela imobilidade completa, pelo desprendimento de si mesmo e de todos os pensamentos, vossa intuição trabalhará por si mesma para colocar-se em contato com o mundo". Por outras palavras, se rejeitardes todos maus pensamentos, todos desejos, podereis vos adaptar inteiramente e sem o saber à Via da natureza e do Universo.. Assim obterei uma atividade, uma energia, tão maravilhosa quanto estranha. Um bonzo Zen, que havia tido a revelação do céu (Ku) , foi obter o "Aushin Ritsumei", isto é, a tranqüilidade de espírito, a verdade e a compreensão de sua missão. Atingiu-o por diferentes meios, com duros sofrimentos, tais como assentar-se na obscuridade de uma sala de Meditação (Zendo) em pleno inverno e recolher-se profundamente em silêncio completo, durante longas horas, ou penetrar no mais profundo das montanhas e das florestas e fazer-se bater pela água gelada e purificante de uma cascata tombando de uma altura de mais de 300 metros, ou jejuar e rejeitar todo desejo corporal. Estes sofrimentos a fim de atingir a "entidade"são um exemplo que mostra bem o objetivo principal da prática das Artes Marciais. O verdadeiro Samurai não perde jamais a razão diante de qualquer acontecimento, não experimenta nenhum medo e não se perturba diante da ameaça de uma lâmina faiscante. Por grande que possa ser seu sofrimento, não se altera diante da prova da água ou a do fogo, pode continuar impassível nas dificuldades e nas dores contínuas, não perde sua tranqüilidade mesmo se é objeto das piores injúrias e não se orgulha de nenhuma ação, por mais brilhante que seja.

razão de seu poder reside no fato de que sabe compreender a verdadeira natureza das Artes Marciais. Tudo isso refere-se ao que se chama "intuição recíproca" ou "comunicação de espírito a espírito" e, para obter esta intuição é preciso que vos experimenteis unsaos outros e vos choqueis mutuamente para que vos torneis mais brilhantes e melhores juntos. É preciso passar por toda sorte de sofrimentos, e é no curso deste longo período que compreendereis e assimilareis naturalmente sem vos dardes conta. Nenhum mestre, tendo tido a revelação da "Via", por mais sábio que seja, pode dar uma definição exata desta COISA nem lhe dar qualquer forma... Deveríeis compreender isso".
O velho gato acabou aí sua explicação e desapareceu tão subutamente da minha vista como se tivesse se dissolvido no ar. Mas eu tinha tido, escutando suas palavras, o sentimento de ter atingido o fundo mesmo da REVELAÇÃO.

Existiam nesta época, muitos Mestres célebres versados em minha Via (Kendo e Jiu-Jitsu) mas depois da história que acabei de evocar, não experimentei nenhuma desvantagem batendo-me com eles. Foi graças ao dom transmitido pelo velho gato e para não esquecer sua bondade que decidi tomar por nome FURUNEKO MUSHINSAI (Furuneko = o velho gato). Termina aqui minha história".
O velho Samurai tinha falado longamente. Já os pássaros cantavam nos bosques circundantes e o cume da montanha BIZAN começava a tingir-se das cores violáceas da aurora. Agradeci nivamente sua interessante história e, depois de tê-lo saudado respeitosamente, ia expressar-lhe o desejo de revê-lo brevemente. Neste instante mesmo, uma voz ressou em meus ouvidos e tudo desapareceu no nada...
Espantado, constatei que tinha adormecido sobre a esteira do albergue. Levantei-me pelo meio e vi o que tinha me despertado: a velha hospedeira da choça tinha vindo anunciar que o desejum estava pronto. Foi então que compreendi que tudo o que tinha visto e ouvido fora um sonho.
Miau... um miado lamentoso e inocente saiu de sob minhas cobertas e fez-me estremer... era o gatinho que tinha posto à noite, antes de dormir, aos meus pés, para esquentá-los...

SHIRO SAIGO